terça-feira, 16 de novembro de 2010

Síntese “História social da Infância e da família” e “Casa Grande e Senzala”

Síntese “História social da Infância e da família”

A primeira idade segundo Ariès era representada dos três aos sete anos, a idade era irrelevante. As crianças eram vistas como mini adultos, os brinquedos eram os mesmos para crianças e adultos (cartas, jogos de azar, entre outros), até o século XVIII quando o adulto perde o interesse pelos brinquedos e os jogos de azar proibidos para crianças. O ballet era um tipo de brincadeira que só servia para as pessoas se fantasiar. As vestimentas no século XVI eram da seguinte maneira: Meninos com até sete anos se vestiam igual meninas e as meninas igual a mulheres. O laço era signo da infância e o espartilho foi usado até o século XIX. A partir do século XVI, foram criados internatos para crianças aprenderem a se comportar e adquirir conhecimentos, antes elas só aprendiam ofícios, pois conhecimento não era tão importante.

Síntese “Casa Grande e Senzala”

Neste livro há um grande destaque ao patriarcalismo, o patriarca tinha domínio de tudo que se encontra em suas terras, de sua esposa até os escravos. A economia era agrária, a colonização foi vista como um ponto positivo, pois foi assim que ajudou não apenas economicamente mas também culturalmente (catolicismo), porém trouxeram muitas doenças e a escravidão . A miscigenação teve origem a partir da colonização. Ao nascimento de uma criança na casa grande, uma escrava se tornava ama de leite e muitas vezes até mãe da criança. O escravo que trabalhava dentro da casa grande tinha uma relação íntima com a família. Foi assim que a sociedade brasileira foi criada.


(Texto criado por Mariana Mu, estudante do 1º semestre do curso de Pedagogia)

Conceitos de infância, família e escola segundo Philippe Ariès e Gilberto Freyre

Conceitos de infância, família e escola segundo Philippe Ariès

A criação do conceito e do sentimento de infância é um fenômeno histórico que surgiu apenas na Idade Moderna, a partir da análise das necessidades deste período etário. Philippe Ariès desvenda o processo de construção desse sentimento a partir da análise de elementos iconográficos. O autor se deteve basicamente, no estudo da criança e da família na França Medieval. A característica que marcou este período foi o fato de as crianças estarem inseridas no mundo adulto, sem diferenciação específica. Suas vestimentas eram praticamente iguais as de seus pais e até certa idade, tornava-se difícil distinguir meninos de meninas. Todas eram tratadas como mini-adultos, além de viverem em um mundo sem censura. Somente a partir do século XVII começou a se reconhecer a necessidade de discernir a participação das crianças no mundo adulto.

Reconhecida a fragilidade das crianças, a escola tornou-se um meio de isolar as crianças da vida adulta, preocupando-se com a formação moral, cristã e intelectual, visto que até a Idade Média as diferentes idades eram misturadas sem a devida preocupação em um mesmo ambiente de aprendizagem. A criação do ensino público proporcionou a separação de classes, sendo que nestas escolas estudavam apenas alunos pobres, separados das camadas burguesas e aristocráticas.

A criação da infância trouxe consigo a visão da criança no âmbito familiar como um brinquedinho frágil, comparado a um anjo. Algumas doutrinas foram adotadas após sua criação como manter a vigilância contínua sob as crianças, ter uma maior preocupação com a decência, habituá-las desde cedo à seriedade e evitar o mimo em excesso.

Conceitos de infância, família e escola segundo Gilberto Freyre

A infância apresentada no livro “Casa-Grande e Senzala” por Gilberto Freyre era praticamente ausente de meninos, pois estes desde muito cedo precisavam se comportar como adultos através de seus gestos e vestimentas. Até os cinco anos muitos dos meninos andavam nus como os moleques da senzala, sendo que por vezes, diferenciá-los era quase impossível.

O ensino era praticamente eclesiástico. As escolas eram compostas de salas de aula pequenas e sem ar, mas alguns meninos estudavam em casa com capelão ou mestre particular. Por vezes, uniam-se aos filhos de engenho os moleques da senzala para também aprenderem a ler e escrever. Através de castigos como o uso da cafua nas casas-grandes e da palmatória nas escolas, os meninos sofreram grandes abusos e humilhações por conta de seus professores.

Junto dos familiares, as crianças também sofriam outros tormentos. Para aproximarem-se do estilo dos europeus, os meninos eram obrigados pelos pais a castigar e maltratar os moleques e negrinhas da senzala. Em casa, os castigados por sua vez, eram eles. Em dias festivos deviam apresentar-se de terno bem alinhado e postura sisuda, sendo proibidos de brincar. Aos pais deveriam dirigir-se sempre os chamando de “senhor e senhora”. As não tinham direito à escola, eram doutrinadas para os afazeres domésticos, casavam em torno dos quinze anos de idade e deviam ser sempre tímidas. Através do regime patriarcal, os filhos e a esposa do senhor de engenho deveriam sempre submeter-se ao mesmo.


(Texto criado por Priscila Costa da Silva Aristimunha, estudante do 1º semestre de Pedagogia)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Concepção de Infância, colégio e família

História Social da Infância e da Família, Philippe Ariès

O conceito de Infância como categoria social e histórica surgiu na Idade Moderna, quando se começou a pensar nesse período de vida com suas especificidades e necessidades. As crianças na Idade Média eram tratadas como mini adultos, participavam de todas as atividades em comunidade sem nenhuma censura, compartilhavam até mesmo da imoralidade não se acreditava na inocência delas. Em suas vestimentas até certa idade, não distinguiam meninos de meninas, quando cresciam vestiam-se com roupas idênticas aos pais, essas vestimentas eram desconfortáveis. Por volta do século XVIII as roupas começam a se tornarem mais folgadas e leves.

Ao reconhecerem as crianças como sendo seres frágeis, delicados e desprotegidos os eclesiásticos e moralistas perceberam a necessidade de isolar os pequenos para sua formação moral e cristã. Nos colégios presididos por eclesiásticos os jovens eram ensinados a “rezar e obedecer”, dentro de uma rigorosa disciplina. Estado instituiu os colégios públicos e laicos, aos filhos de pobres era prioridade se ensinar um ofício, já aos filhos de ricos se ocupava da formação intelectual para que no futuro se tornassem governantes. A estrutura escolar sofreu diversas modificações, por exemplo, não havia separação por idade nas classes, professores dividiam o mesmo espaço.

Com a criação do ensino público obrigatório as famílias conjugais passaram a ter um papel fundamental na vida social, pois aos pais foi atribuída a obrigação de manter os filhos nos colégios. Antes disso entre as classes populares não havia esse sentimento de família, as pessoas viviam em comunidades, uns cuidando dos outros.

Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre

A criança indígena aprendia através dos costumes da tribo, com a criação dos colégios jesuítas pretendia-se catequizar e civilizá-lo nos moldes europeus.

As crianças brancas tinham liberdade de chamar mamãe e papai apenas na primeira infância, depois a formalidade e obediência total deveriam ser observadas no tratamento com os pais. Os “senhorzinhos” viviam um paradoxo entre a formalidade e o excesso de liberdade com as escravas com quem aprendiam quase tudo, inclusive a iniciação sexual.

Os meninos brancos conviviam com os “negrinhos” e com eles aprendiam nas salas de aula das capelas dos engenhos, sob a rigidez do padre ou capelão, o ensino era basicamente o religioso. Existiram professores negros nesta sociedade, estes eram doces e bons com os alunos, o oposto dos padres e mestres severos nas punições e muito “ranzinzas”.

Após a independência começaram a surgir colégios onde se ensinavam as ciências, os alunos vestiam-se de paletó e gravata, o regime era de internato. O professor era autoridade absoluta, podendo punir fisicamente seus alunos.

As meninas, raras as exceções, não frequentavam colégios, eram preparadas para serem esposas submissas aos maridos. A família da sociedade açucareira era patriarcal, os filhos e esposa se submetiam ao senhor de engenho, restando a eles servirem e obedecerem, quase uma relação de escravidão.

(Texto criado por Aline Moreira dos Santos, estudante do 1º semestre de Pedagogia)

Síntese sobre as apresentações

Na visão de Ariès a escola na idade media (séc.XVI) era uma forma de separar a criança da família e dos adultos, a escola era um ambiente inapropriado para o desenvolvimento intelectual da criança. As idades não eram separadas e infância era uma coisa que não existia, as crianças eram tratadas como mini-adultos e seus trajes e pinturas tinham formas e semelhanças com seus pais, não se acreditava que as crianças possuíssem pensamentos ou atitudes inocentes, não tinham atenção excessiva.

Tinha-se maior preocupação com o conteúdo a ser aplicado e não na faixa etária, atribuída à escola medieval. Philippe Ariès traduz a infância a partir dos sete anos como Enfant, ou seja, não-falante, pois nesta fase a criança não se expressa bem, não consegue fazer uma boa articulação. A infância é ignorada, as crianças eram tratadas com grosseria e brincadeiras despudoradas.

Já no século XIV as atividades eram distinguidas pelo sexo, meninas possuíam atividades diferenciadas como fiar, bordar, costurar e meninos a ler, escrever e cálculos matemáticos.

No contexto de Casa Grande & Senzala, entra duas culturas diferenciadas, o indígena e os africanos, mas ambas com interferências do “homem branco”. O indígena com relação a família a mulher assume um papel principal, como cuidar da casa, trabalhar no campo, confecção dos utensílios domésticos. O homem cuida dos filhos, mas também assume um papel de importância no cultivo e plantação para o sustento da família. A infância nas tribos é regrada a danças e influencias de gerações, as crianças com bonecos de barro confeccionados por sua mãe e quase não existe briga entre as crianças. A educação dos índios antes dos Jesuítas chegarem era realizada através dos mais velhos. Com a chegada da Companhia de Jesus, os índios, então começam a serem catequizados e seus hábitos modificados, principalmente na religiosidade.

Com os negros africanos não foi muito diferente, pois eram utilizados como escravos, as crianças assumiam o papel de “brinquedo” para a criança branca, eram como se fossem uma espécie de “cavalinho”, pois montavam como tal e suas infâncias eram reduzidas a isso. Os brancos eram os únicos que tinham acesso a uma boa educação, tinha em sua residência um tutor para ensiná-los e educá-los. Somente o escravo que convivia com a família na casa grande, como amas de leite ou dama de companhia, que recebiam algum tipo de educação. Enquanto as crianças negras eram tratadas por seus pais com certa afetividade, os brancos refletiam a imagem e semelhança dos seus pais, eram tratados como mini-adultos.


(Texto criado por Rhayza Schuller Grassotti, estudante do 1º semestre de Pedagogia)


Infância e Escola

Segundo o livro de Ariès, na Idade Média a infância era sinal de ingenuidade, iria até os sete anos e as crianças não sabiam se expressar corretamente. E a infância foi mais privilegiada no século XIX. As crianças eram vestidas como mini adultos, assim como acontece no Casa Grande & Senzala, só no século XVII que começaram utilizar roupas que as deixassem mais ‘livres’, mais soltas. As brincadeiras eram precoces, aprendiam tudo muito cedo, tocar instrumentos, dançar e falar.

Durante a passagem do século XVI para o século VII a sexualidade era totalmente explícita na infância, mas ainda no século XVI começaram ocorrer mudanças, sendo a criança tida como um anjo.

As escolas eram compostas por turmas que tinham desde crianças até adultos e sendo utilizado o mesmo método de ensino para ambos. Os colégios eram abrigos para os pobres, só depois de dois séculos de existência passou a ser um local de ensino e de disciplina rígida. Somente no início do século XIX a criança começou a ser tratada de modo diferente e iniciou-se a relação entre idade e classe escolar. No fim da Idade Média o mestre tinha grandes responsabilidades, deveria educar o aluno além de ensiná-lo.

Já na obra Casa Grande & Senzala as crianças brancas estavam sempre com suas amas, que os protegiam, cantavam canções e contavam-lhe histórias. Seus brinquedos eram os escravos que tinham a mesma idade. Assim como no livro de Ariès a sexualidade era cedo, meninas casavam-se novas, após a comunhão deixavam de serem crianças.

Os meninos de engenho tinham mestres particulares e os meninos escravos ficavam observando para também aprenderem a ler e escrever. Houve situações em que os meninos de engenho aprendiam com professores negros, que eram menos rígidos.

Conforme o número de colégios crescia, acontecia o mesmo com as doenças, pois a higiene dos internatos era precária. Os mestres eram totalmente autoritários e aplicavam punições severas aos alunos.

(Texto criado por Francine da Silva Duarte, estudante do 1º semestre de pedagogia)

Síntese dos trabalhos apresentados

Casa Grande e Senzala - Gilberto Freyre

Na era colonial, muitos negros foram trazidos para o Brasil para trabalharem de forma escravizada nos engenhos de açúcar. O que diferenciava os negros dos índios e o fato de preferirem os negros trabalhando no lugar dos índios era que os negros eram mais fortes, mais trabalhadores, resistentes, alegres, ao contrário dos índios que preferiam a tranqüilidade, a calmaria, os dias de chuva.

As escravas negras quando tinham filhos se tornavam amas de leite para amamentar os filhos das senhoras de engenho. Assim como amamentavam seus filhos, tinham de amamentar os filhos de suas amas. Quando estavam crescendo as crianças brancas brincavam com as negras e faziam-nas de brinquedo. As amas de leite ensinavam uma linguagem delas próprias, que ficou sendo usada no nordeste brasileiro. Palavras como “mainha” e “oxente” foram expressões que as negras usavam e ensinavam para os senhorzinhos. Além das expressões, a culinária africana foi sendo trazida pelas escravas negras.

Quando essas crianças cresciam, muitas vezes perdiam a virgindade com as próprias negras que os amamentaram quando pequenos. A ociosidade dos senhores de engenho despertava o prazer, que era satisfeito com as negras domésticas. Nesta fase a sífilis foi se propagando de forma rápida e a desculpa que era trazida para a doença era que os senhores contraíam a sífilis através das relações com negras virgens.

O fato de as esposas saberem que seus maridos mantinham relações extraconjugais com as escravas fazia com que estas se vingassem das escravas de diversas formas muito crueis. As meninas se casavam com 12 ou 13 anos de idade, passando desta a partir dos 15 anos já não estavam mais apropriadas para casar, e se passassem dos 20 anos eram consideradas murchas e gordas. Porque se casavam cedo, tinham filhos cedo e o corpo e o comportamento destas moças acabavam se deformando, motivo para seus maridos começarem a se relacionar com as negras.

Os filhos dos senhores de engenho a partir dos 12 anos, mais ou menos, vestiam roupas como de seus pais. Eram trajados como adultos e deveriam se portar com tais. Iam para a escola, onde recebiam uma educação rígida. Os negros eram os músicos daquela época, tocavam em bandas e participavam de corais.


História Social da Infância e da Família – Philippe Ariès

Entre os séculos XVI e XVII, as idades foram se categorizando de formas diferentes entre infância, juventude e idade adulta. As diferentes idades para cada uma das categorias foram sendo modificadas ao longo destes períodos. A infância nesta época não era valorizada e as crianças eram tratadas como adultas.

As crianças, quanto ao traje, usavam roupas pesadas, com muitas peças e mais tarde começaram a usar roupas mais leves, sem muitos panos.

Elas eram brinquedos dos adultos. Tratadas em um meio indecente, viam e sabiam da vida adulta sem nenhuma restrição. A pedofilia era algo normal, era como um jogo, pois os adultos acreditavam que as crianças não entendessem o que estava acontecendo e que também não teria consequências. Mais tarde, essas ideias foram se alterando e começaram a comparar as crianças com anjos. Então a inocência e o pudor foram sendo respeitados.

Nas escolas, antes que houvesse a separação de turmas por idade, meninos e meninas de diferentes idades estudavam na mesma turma. No decorrer dos tempos, as turmas foram dividas de diversas formas, a capacidade intelectual foi um dos critérios para esta divisão. Antes que pudessem participar das escolas, crianças com menos de 10 anos não poderiam estudar, assim separavam as idades de primeira infância e infância escolar.

A forma de como a infância foi tratada e como as idades foram categorizadas, tanto na vida particular quanto na vida escolar, caracterizou fundamentalmente a evolução da infância nos séculos XVI e XVII.

(Texto criado por Gianna Tassoni Metzger, estudante do 1º semestre de Pedagogia)

Infância, Família e Escola

INFÂNCIA, FAMÍLIA E ESCOLA SEGUNDO PHILIPPE ARRIÈS

A infância foi construída a partir da visão dos adultos sobre as crianças, o que fazia com que crianças, a partir de uns sete anos, e adultos, não fossem distinguidos. Assim que a criança não dependesse mais da ama de leite, e que já estivesse crescida, ela deveria abandonar os seus brinquedos e jogos (cortar papel com tesoura, música, alfabetização, regras de etiqueta e moralidade, bonecos, cartas, xadrez), se vestir como os adultos, e passar a se comportar como eles. E desta forma, deixar a infância de lado. E se a criança ainda era muito pequena, era ignorada por todos. O ser humano só passava a existir quando se misturava com os adultos. Todas as crianças, a partir dos sete anos de idade, independente de sua condição social, eram inseridas em famílias estranhas para aprenderem serviços domésticos. Os trabalhos domésticos não eram considerados degradantes e constituíam uma forma comum de educação tanto para os ricos como para os pobres.

Ariès utiliza a iconografia (uma forma de linguagem visual que utiliza figuras para relacionar alguns temas) para falar de infância e família. A iconografia tradicional dos doze meses do ano foi criada no século XII: os trabalhos, os dias e as estações. No século XVI, essa iconografia dos meses sofreu uma transformação significativa, e assim, traz a família, combinando-se com os símbolos de uma alegoria tradicional: as idades da vida. As formas de representação eram a criança, o casal e o idoso. O aparecimento do tema ‘família’ não foi um simples episódio, mas uma evolução durante os séculos XVI e XVII. O sentimento da família é inseparável do sentimento da infância. Surgiram então os Tratados Práticos de Educação: conselhos aos pais sobre como educar seus filhos. A educação não é mais voltada para as boas maneiras, é importante a escolha de uma escola e um ofício. O objetivo era instruir a própria família sobre seus deveres e suas responsabilidades, e aconselhá-la em sua conduta com relação às crianças.

A escola na Idade Média era reservada a apenas a um pequeno número de sacerdotes de diferentes idades. Era comum haver adultos e, até mesmo idosos, junto com crianças pequenas formando uma só turma. Houve o uso de autoritarismo para separar as crianças da sociedade dos adultos. Resistências a essa evolução persistiram por longo tempo. De asilos, as escolas passam a institutos de ensino, submetendo os alunos a uma disciplina autoritarista. Essa mudança fornece o modelo para a complexa instituição que se tornou o colégio moderno misturando ensino, vigilância e enquadramento da juventude. Esse processo está conectado à nova percepção das idades e da infância. A partir de 1763, o regime disciplinar escolástico passa a ser rejeitado e os castigos corporais não são mais aplicados à infância. O investimento passa a ser no despertar do adulto contido na criança, buscando o sentido de sua dignidade.

INFÂNCIA, FAMÍLIA E ESCOLA SEGUNDO GILBERTO FREYRE:

As crianças eram vistas como mini-adultos, deveriam vestir, desde uns nove anos, calças pretas e se comportar como adultos, andar de forma grave com gestos sisudos e ar tristonho. Até uns cinco anos de idade as crianças andavam nuas como os moleques da senzala, e assim não era possível distingui-los. As crianças brancas, criadas pelas iaiás, tiveram que lidar com alguns tormentos. Para tomarem ar de europeus, os barões e viscondes do Império deixavam que seu filho judiasse de moleques e negrinhas, mas na sociedade dos mais velhos o judiado era ele. Nos dias de festa devia apresentar-se de roupa de homem, e duro, correto, sem machucar o terno preto em brinquedo de criança. Ao pai devia chamar “senhor pai” e à mãe “senhora mãe”: a liberdade de chamar “papai” e “mamãe” era só na primeira infância. Até então, esposas e filhos se encontravam quase no mesmo nível dos escravos. Somente depois de casado o filho arriscava-se a fumar na presença do pai; e fazer a primeira barba era cerimônia da qual o rapaz necessitava sempre de licença especial. Licença sempre difícil, e só obtida quando o buço e a penugem da barba não admitiam mais demora.

O português costumava usar o homem para o trabalho e para a guerra, principalmente na conquista de novos territórios, e a mulher servia para formar a família. Esse contato provocava o desequilíbrio das relações do índio com o seu meio ambiente. A escravidão desenraizava o negro de seu meio social e desfazia seus laços familiares. Além dos trabalhos forçados, ele era usado como reprodutor de escravos: era necessário aumentar o número de escravos para o senhor de engenho. As crias nascidas eram logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. Os senhores de engenho casavam-se várias vezes, sempre preferindo as jovens sobrinhas; o sentimento da propriedade privada era exagerado. As heranças eram disputadas por filhos legítimos e parentes próximos. Aos filhos bastardos, gerados nas casas-grandes e paridos na senzala, restava a tolerância do senhor, que ao morrer os libertava.

Até meados do século XIX, o costume dos meninos de engenho foi o de fazerem os estudos em casa com capelão ou mestre particular. O mestre era um senhor todo-poderoso. Do alto de sua cadeira, que depois da Independência tornou-se uma cadeira quase de rei, com a coroa imperial esculpida em relevo no espaldar, distribuía castigos com o ar terrível de um senhor de engenho castigando negros fujões. Ao vadio punha de braços abertos; ao que fosse surpreendido dando uma risada alta, humilhava com o chapéu de palhaço para servir de deboche da escola inteira; a um terceiro, botava de joelhos sobre grãos de milho. Isto sem falar da palmatória e da vara – esta, muitas vezes com um espinho ou um alfinete na ponta, permitindo ao professor furar de longe a barriga da perna do aluno.

Quanto à caligrafia cabe destacar que o mestre gastava horas e horas aperfeiçoando os bicos das penas de ganso, e depois disso, iniciava-se a tortura – o menino com a cabeça para o lado, a ponta da língua de fora, em uma atitude de quem se esforça para chegar à perfeição; o mestre, de lado, atento à primeira letra gótica que saísse torta. Um errinho, qualquer - e eram bordoadas nos dedos, beliscões pelo corpo ou puxões de orelha. Outro estudo sagrado foi o de latim. Quanto à soletração, aprendia-se “em uma balburdia enfadonha”, diz-nos o padre Sequeira. Soletrando-se tudo alto.

Depois da independência, começaram a surgir colégios particulares, onde os filhos de magistrados e de funcionários públicos e senhores de engenho passaram a estudar. Imagine a saudade com que os meninos de engenho, acostumados a uma vida toda de vadiação – banho de rio, arapuca de apanhar passarinho, briga de galo, chamego com as primas e negrinhas – deixavam essas delícias para virem, de barcaça ou cavalo, estudar nos internatos; ou mesmo nos externatos – neste caso hospedando-se em casa dos comissários de açúcar ou café.

(Texto criado por Nathália Seibt, estudante do 1º semestre de Pedagogia)

Síntese das obras: História social da criança e da família e Casa Grande e Senzala

Os autores Phillippe Àries e Gilberto Freyre, em seus livros “História social da criança e da família” e “Casa Grande & Senzala”, respectivamente, nos fazem refletir sobre alguns temas instigantes. Como, por exemplo, a infância, a escola e a família. Realizarei um sucinto comentário sobre os temas citados acima.

O livro “História social da criança e da família” é dividido em três partes: a primeira discute o nascimento da infância (O Sentimento da Infância), a segunda aborda as condições e mudanças da vida escolar (A Vida Escolástica) e a terceira discute as diferentes configurações da família ocidental ao longo da História das Mentalidades (A Família).

Segundo Àries, a formação do novo conceito de infância se dá entre os séculos XVII e XVIII. As primeiras demonstrações são caracterizadas pela paparicação, a criança (principalmente aquela pertencente à elite) era vista como um ser inocente e divertido que entretinha os adultos.

A escola não tinha classificações etárias, pois seu objetivo era disciplinar os aprendizes de qualquer idade, possuía uma origem religiosa e era extremamente rígida. As meninas eram excluídas do convívio escolar. A escola tinha também um aspecto de vigilância, como, por exemplo, nos internatos. Mas isso não era para todos, alguns tinham sua infância dentro de internatos (elite) outros se transformavam em adultos (povo).

O sentimento de família também não era algo comum na Idade Média, começou a se desenvolver a partir dos séculos XV e XVI. A família em si existia, o que era inexistente era o sentimento, a idéia de algo reservado à intimidade, pois nessa época a vida pública era muito presente, misturava-se com o ambiente familiar.

Na obra “Casa Grande & Senzala” Gilberto Freyre testemunha os modos e costumes dos meninos das casas-grandes. Segundo o autor, os filhos dos senhores de engenho (elite) eram obrigados a se comportarem como adultos, vestindo-se como tais e mantendo uma postura sisuda desde os dez anos de idade. Em contrapartida, Luccock, pesquisador que esteve no Brasil durante o século XIX, observou que até os cinco anos muitos meninos andavam nus, como se fossem moleques da senzala.

O costume dos meninos de engenho era estudar em casa, com um mestre particular, até que vieram as estradas de ferro no ano de 1850, com isso, o ingresso dos meninos nas escolas tornou-se mais fácil. Nas escolas eles aprendiam aritmética, geografia, latim, música, caligrafia e francês. Os alunos assistiam às aulas vestidos como adultos, com: paletó preto, calças pardas, sapatos e gravata. O mestre que ministrava as aulas era autoridade máxima. Munia-se de vara e palmatória. Aplicava castigos físicos aqueles que cometessem um errinho qualquer. Para as meninas o direito de estudar era negado, aprendiam apenas o que era necessário para elas, como bordar, por exemplo.

Na família quem detinha o poder era o marido, as esposas e os filhos mantinham-se no mesmo nível dos escravos. O filho devia chamar o pai de “senhor pai” e a mãe de “senhora mãe”, demonstrando respeito. Somente depois de casado o filho tomava liberdade de fumar na frente do pai, precisava da licença do pai até mesmo para fazer a barba. As meninas eram tímidas, com olhar humilde e casavam-se cedo, com quinze anos, mais ou menos, com homens de quarenta.

(Texto criado por Juliana Toniazzi Viana, estudante do 1º semestre de Pedagogia)




Infância <=> Família <=> Escola

“Todas as pessoas grandes
foram um dia crianças,
mas poucas se lembram disso.”
(O Pequeno Príncipe)



Três instituições sociais, cada uma com as suas peculiaridades, suas distinções historicamente desenvolvidas na sociedade. Sintetizar as obras de Freyre e Ariès é perpetuar um enriquecedor conhecimento que ainda hoje emociona, aguça, instiga e reflete características fundamentais dos temas acima propostos.
A infância era desconhecida para o medieval até por volta do século XII. As crianças eram vistas como “adultos-mirins”, vestiam-se com roupas sérias e formais como as de um adulto e, quando bebês, o cueiro era a vestimenta usada. A mortalidade infantil era elevadíssima (a sua sobrevivência era improvável), mas assim que a criança superava esse período, ela se confunde com os adultos. Foram com as mães e as amas que outro sentimento surge: a criança tem graça, é ingênua, gentil e agradável aos adultos – “Paparicação”- acontecia nos primeiros anos de vida, onde os gestos, modos, alguns sons eram “engraçadinhos”. Havia a consciência da inocência e da fraqueza da infância. Com a influência francesa, dá-se pela palavra “bebé” o primeiro nome característico dos recém-nascidos e primeiros tempos de criança.

O que a criança aprendia já era para satisfazer as tarefas que desenvolveriam nos anos decorrentes da vida. Faz-se necessário uma observação: a infância foi a idade privilegiada do século XIX, a adolescência, do século XX e a juventude, a do século XVII. A descoberta da infância foi dada através de três tipos figurativos de crianças: “anjo”, pela influência da religião; o segundo, o “menino Jesus” (maternidade) e o terceiro, a criança “nua” (do despudor à inocência). O “retrato” e a expressão “putto” apareceram no século XV (indicando a morte, o real, o momento da vida) com profundidade.

Foram os moralistas e educadores do século XVII, fundadores de colégios (fim da Idade Média) conseguiram impor seu sentimento grave de uma infância longa graças às instituições escolares e às práticas de educação (orientações e disciplinas). Os jesuítas foram os verdadeiros inovadores, reformadores escolásticos (XV) que com eles surgiram o sentimento de particularidade infantil, o conhecimento da psicologia infantil e a preocupação com o método adaptado a essa psicologia.

As primeiras instituições de ensino foram a da Mesopotâmia e a egípcia. Lá, formavam-se os “Escribas” (hieróglifos – comunicação – contabilidade estatal). A educação clássica surgiu com os gregos e a escola era restrita para os filhos dos governadores; disciplinas ligadas à política e à guerra; exemplo: Academia de Atenas (Platão). Roma acrescentou moral e cívica no currículo heleno. No final da Idade Baixa, o “mestre livre” (autônomo), viria trazer o personagem do “tutor” (profissional moderno) que formaria o nobre e seus filhos. Com a Revolução Francesa, veio a idéia de uma escola gratuita e para os cidadãos. No desenvolvimento da indústria, a escola tem um novo papel, lugar de treinamento do jovem para o mundo do trabalho. O exemplo de primeira escola moderna foi na Escócia, em New Lanarck, que cuidava dos filhos dos operários da fábrica de um industrial. A disciplina escolar teve origem na disciplina eclesiástica ou religiosa. A diferença essencial entre a escola da Idade Média e o colégio dos tempos modernos reside na introdução da disciplina. A partir do século XVIII, a escola única foi substituída pelo ensino duplo: ramo pela educação social – liceu ou colégio para os burgueses (secundário) e a escola para o povo (primário). No fim do século XVIII, há um sincronismo entre a classe de idade moderna e a classe social (meio burguês).

O sentimento de família era desconhecido até a Idade Média e nasceu nos séculos XV e XVI. A família conjugal moderna foi conseqüência da evolução que enfraqueceu a linhagem e as tendências à divisão. A família teve valorização quando se formou com os pais e filhos numa profunda exaltação de emoções. Nos meios mais ricos, a família se confundia com a prosperidade do patrimônio, da honra e do nome. A família quase não existia sentimentalmente entre os pobres, e quando havia riqueza e ambição, o sentimento se inspirava no mesmo sentimento provocado pelas antigas relações de linhagens. Um dos fatos mais essenciais da transformação da realidade foi a extensão da freqüência escolar. Com isso, a criança passa mais tempo na escola e a aproximação da família na formação moral se aprofunda. A família do século XVII conservou grande sociabilidade em massa; a família moderna separou-se do mundo e opõe-se à sociedade o grupo solitário dos pais e filhos. Toda a energia é consumida na promoção das crianças.

A “instituição” Família passa por três momentos: direito privado para a transmissão de bens e nomes; função moral que a educação escolar preencheria; e a família moderna com uma afetividade nova, um sentimento moderno (identidade e intimidade).
Freyre, em Casa-Grande e Senzala traz características fundamentais sobre todo o período de escravidão, exploração e violência contra os índios e negros escravos. Relata um Brasil com seus usos e costumes, a família formada sob o regime patriarcal, onde tudo e todos eram chefiados pelo senhor de engenho – mulher, filhos, escravos, comerciantes, padre entre tantos outros.
O índio era nômade, trabalhava para a subsistência. As índias tinham o hábito da higiene (banhos diários, chuva). Com a chegada dos conquistadores e a sua falta de higiene, vieram as doenças. Foram exterminados milhares de nativos e escravos pelas relações sexuais (os europeus “sifilizaram” o Brasil, antes mesmo de “civilizarem”). Os negros africanos trouxeram ao Brasil toda a sua cultura (religião, culinária, arte, profissões), muitas negras já na Casa-Grande serviam aos senhores à mesa e na cama pela submissão que o regime impunha. Além disso, sofriam com os ciúmes das sinhás e os castigos que lhe aplicavam. Os filhos das mucamas serviam de “brinquedinho” de judiaria para os filhos brancos do senhor.

Ficou clara a distinção de culturas entre índios, negros e brancos. A miscigenação arraigou diversos interesses, injustiças e lucro da exploração econômica de inúmeras riquezas nativas numa sociedade patriarcal autoritária da aristocracia feudal.





Referências Bibliográficas:

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala; editora Global
PHILIPPE, Ariès. História Social da Criança e da Família; LTC
www2uol.com.br/historiaviva/multimídia/de_onde_veio_a_escola.html
MANACORDA, Mario Aliguiero. História da Educação – Da Antiguidade aos nossos dias; editora Cortez, 1989


(texto criado por Rosângela Cardoso de Oliveira, estudante do 1º semestre de Pedagogia)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sínteses dos alunos sobre as leituras do semestre.

As estudantes da Turma A da disciplina de "História da Educação: Europa e Américas" estão fazendo escritos sobre as leituras e apresentações dos grupos do semestre, os livros apresentados são: "A história social da Infância e da Família" de Phillipe Ariès e os capítulos IV e V de "Casa Grande & Senzala" de Gilberto Freyre. Iniciamos, portanto, a sequencia de escritos das estudantes.
Resumo Infância
Para Ariès, não havia a distinção da infância, esta havia surgido no séc. XVI e inserida no mundo dos adultos. Mas a partir do séc. XVII, começa haver uma necessidade de distinção da infância, ou seja, das crianças e dos adultos. No séc.XVIII, o conceito de infância era visto como algo inferior. Conforme essa concepção a infância foi sendo assimilada e considerada por direito.

A partir do séc. XVII, houve a separação das crianças menores das mais velhas. Ocorrendo simultaneamente a separação das classes sociais, ou seja, ricos separados de pobres. Havendo a distinção do ensino, uma para o proletariado e outro para as chamadas classes burguesas e aristocráticas.

No livro Casa Grande e Senzala, o autor apresenta a infância dos senhorzinhos. Quando a criança deixava o berço, ganhava de presente como brinquedo um escravo da mesma idade. A infância era mais erotizada, visto que, desde muito cedo as crianças eram estimuladas até mesmo com brincadeiras pelas amas-de-leite. Percebe-se que a infância foi sendo constituída aos poucos, houve então o reconhecimento de que a criança necessitava de alguns cuidados essenciais.
(Vanessa S.Silva, estudante do curso de Pedagogia 1º semestre)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Resenha do livro "Casa Grande & Senzala" de Gilberto Freyre


O capítulo V inicia-se com a narrativa sobre os modos e costumes dos meninos das casas-grandes. O autor explica que desde muito cedo os meninos filhos dos senhores de engenho e participantes da elite eram obrigados a se comportarem como adultos desde os nove ou dez anos, usando trajes na cor preta e andando de forma grave com gestos sisudos e ar tristonho.

Gilberto Freyre cita a reflexão de muitos pesquisadores que estiveram em nosso país durante os anos da colonização, como Luccock que esteve em visita ao Brasil no início do século XIX, observando os costumes de nossa sociedade, notando assim a falta de alegria nos meninos e a pouca vivacidade dos rapazes. Ele também observou que até os cinco anos de idade muitos dos meninos andavam nus como os moleques da senzala, sendo quase indistinguível a diferença entre ambos. Durante sua visita, o pesquisador notou que os meninos estudavam em salas de aula pequenas e sem ar, onde todos liam alto e ao mesmo tempo. Em visita ao Seminário de São José no Rio de Janeiro, Luccock observou os alunos na hora do recreio onde notou que todos usavam uma batina encarnada, alguns com os cabelos cortados como clérigos e sem demonstrar nenhuma elasticidade de inteligência, bem como curiosidade de espírito. Além disso, declarou que muitos não demonstraram boas maneiras e ainda por cima, os considerou pouco asseados. Considerou o ensino extremamente eclesiástico e notou que a maioria dos professores era pouco versado em ciências.

Entretanto, nesta mesma época, o bispo Azeredo Coutinho transmitiu ao Seminário de Olinda um feitio oposto àquele que Luccock observou no Seminário de São José. Até meados do século XIX, quando vieram as primeiras estradas de ferro, o costume dos meninos de engenho foi o de fazerem os estudos em casa com capelão ou mestre particular. A maioria das casas-grandes possuía sala de aula e muitas até cafua, espécie de aposento que servia de prisão e castigo para alunos vadios. Muitas vezes uniam-se aos meninos alguns moleques da senzala para aprender a ler, escrever, contar e rezar.

Os colégios jesuítas, seminários e colégios de padres nos primeiros dois séculos de colonização, foram os principais focos de irradiação de cultura no Brasil. Apenas negros e moleques parecem ter sido barrados nas primeiras escolas jesuíticas. Até o século XVIII a lei portuguesa não permitia o casamento entre brancos e caboclos. As mesmas também proibiam indivíduos com sangue de mouro ou negro de serem admitidos ao sacerdócio. Apenas a partir do século XIX começaram a surgir padres com sangue negro.Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas companheiros dos meninos brancos nas aulas das casas-grandes ou mesmo nos colégios, houve também meninos de engenho que aprenderam a ler e escrever com professores negros. Os professores negros podiam ser vistos andando pelas ruas com trajes considerados de pessoas da classe alta e letrada de seu tempo.

Felizes dos meninos que aprenderam a ler e a escrever com professores negros, doces e bons. Devem ter sofrido menos que os outros: os alunos de padres, frades, “professores pecuniários”, mestres-régios – estes uns ranzinzas terríveis, sempre com a vara de marmelo na mão. Os negros foram os músicos da época colonial e do tempo do Império. Os moleques da senzala, meninos de coro nas igrejas. Houve ainda em alguns engenhos, bandas de música formadas apenas por escravos africanos e também, circo de cavalinhos onde os escravos faziam-se de palhaços e acrobatas.

Durante os séculos XVI, XVII e XVIII os colonos eram vistos utilizando roupas impróprias para o clima quente de nosso país: usavam tecidos como veludo e seda e muitos saíam às ruas apenas em palanquins fabricados com os mesmos tecidos. Estes palanquins de luxo podiam ser considerados verdadeiros fornos ambulantes e os mesmos eram carregados por negros escravos durante dias inteiros, viajando de um engenho a outro ou passeando pelas ruas da cidade. Em casa, a maioria dos senhores também se estabelecia sempre sentada. As mulheres de tanto permanecerem sentadas, quando se colocavam de pé chegavam a cambalear. Até mesmo nas igrejas esparramavam-se pelo chão de pernas cruzadas, por vezes em cima de sepulturas ainda frescas. É verdade que depois da Independência começaram a aparecer colégios particulares e a freqüentá-los, filhos de magistrados e altos funcionários públicos, de negociantes e até de senhores de engenho. Imagine a saudade com que os meninos de engenho, acostumados a uma vida toda de vadiação – banho de rio, arapuca de apanhar passarinho, briga de galo, chamego com as primas e negrinhas – deixavam essas delícias para virem, de barcaça ou cavalo, estudar nos internatos; ou mesmo nos externatos – neste caso hospedando-se em casa dos comissários de açúcar ou café. Os comissários foram muitas vezes uns segundos pais dos meninos de engenho.

Com o surgimento das estradas de ferro em 1850, o ingresso dos meninos de engenho nas escolas das capitais tornou-se mais fácil. Nestas escolas eles tinham lições de aritmética, geografia, latim, francês, caligrafia e música. Os alunos compareciam às aulas de paletó preto e calças pardas, sapatos de tapete ou couro e gravata azul. Nos dias de festa e nos domingos deviam apresentar-se de sobrecasaca preta, calça preta, chapéu preto, colete branco, gravata de seda preta, sapatos ou borzeguins pretos. Eram obrigados a banhar os pés nas quartas e sábados e a tomar banho geral uma vez por semana.

Com o aparecimento de maior número de colégios, um assunto que começou a preocupar os higienistas da época foi o da higiene escolar, particularmente a higiene dos internatos. Muito menino do interior morreu de febre ou de infecção nos colégios das capitais. Chamou-se atenção dos pais e mestres para os perigos do onanismo (masturbação) e também para a pederastia. Houve um grande avanço da gonorréia e da sífilis – indício de grandes excessos sexuais entre os meninos de colégio. Abusou-se criminosamente da fraqueza infantil. Houve verdadeira volúpiaem humilhar a criança. Reflexo da tendência geral para o sadismo criado no Brasil pela escravidão e pelo abuso do negro.

O mestre era um senhor todo-poderoso. Do alto de sua cadeira, que depois da Independência tornou-se uma cadeira quase de rei, com a coroa imperial esculpida em relevo no espaldar, distribuía castigos com o ar terrível de um senhor de engenho castigando negros fujões. Ao vadio punha de braços abertos; ao que fosse surpreendido dando uma risada alta, humilhava com o chapéu de palhaço para servir de deboche da escola inteira; a um terceiro, botava de joelhos sobre grãos de milho. Isto sem falar da palmatória e da vara – esta, muitas vezes com um espinho ou um alfinete na ponta, permitindo ao professor furar de longe a barriga da perna do aluno.

Quanto à caligrafia cabe destacar que o mestre gastava horas e horas aperfeiçoando os bicos das penas de ganso, e depois disso, iniciava-se a tortura – o menino com a cabeça para o lado, a ponta da língua de fora, em uma atitude de quem se esforça para chegar à perfeição; o mestre, de lado, atento à primeira letra gótica que saísse torta. Um errinho, qualquer - e eram bordoadas nos dedos, beliscões pelo corpo ou puxões de orelha.Outro estudo sagrado foi o de latim. Quanto à soletração, aprendia-se “em uma balburdia enfadonha”, diz-nos o padre Sequeira. Soletrando-se tudo alto.

Cantando-se:
B – a – bá
B – e – bé
Ba! Bé!

A outros tormentos esteve obrigada a criança branca – e até a preta ou mulata, quando criada pelas iaiás das casas-grandes. Para tomarem ar de europeus, os barões e viscondes do Império deixavam que seu filho judiasse de moleques e negrinhas, mas na sociedade dos mais velhos o judiado era ele. Nos dias de festa devia apresentar-se de roupa de homem, e duro, correto, sem machucar o terno preto em brinquedo de criança. Ao pai devia chamar “senhor pai” e à mãe “senhora mãe”: a liberdade de chamar “papai” e “mamãe” era só na primeira infância. No século XIX, este costume modificou-se bem como o das mulheres só chamarem o marido de “senhor”. Até então, esposas e filhos se encontravam quase no mesmo nível dos escravos. Somente depois de casado o filho arriscava-se a fumar na presença do pai; e fazer a primeira barba era cerimônia da qual o rapaz necessitava sempre de licença especial. Licença sempre difícil, e só obtida quando o buço e a penugem da barba não admitiam mais demora.

As meninas deveriam ser sempre tímidas, com ar humilde. Ai daquela que erguesse a voz. Os namoros eram sempre escondidos, quase sem conversa e agarrado de mão. As moças andavam sempre bem vestidas, com véu, para esconder o corpo.

As mulheres, de quinze anos, eram casadas com velhos de quarenta, cinqüenta e até sessenta nos. Às vezes, por vingança, as escravas fuxiquentas inventavam histórias de namoros das sinhás-donas. O que causou diversos assassinatos por suspeitas de infidelidade conjugal. Um caso impressionante foi o do coronel Fernão Bezerra Barbalho, que assassinou as mulheres e as filhas.As mulheres brasileiras eram tão fogosas, que arriscavam a vida e a honra por uma aventura de amor. A consequência era serem umas apunhaladas pelos maridos, outras se tornavam cortesãs à disposição de brancos e negros. As presenças de negras e mulatas eram uma excitação ao pecado, algo difícil de resistir no Brasil.O que houve no Brasil – cumpre mais uma vez acentuar com relação às negras e mulatas, ainda com maior ênfase do que com relação às índias e mamelucas – foi à degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada. Os jesuítas conseguiram vencer nos primeiros colonos a repugnância pelo casamento com índias. Introduzidas as mulheres africanas no Brasil dentro de condições irregulares de vida sexual, a seu favor não se levantou nunca, como a favor das mulheres índias.

Com o açúcar vendido em maior quantidade e por melhores preços na Europa, desenvolveu-se nos fins do século XVI, não tanto o luxo como desbragada luxúria entre os senhores de engenho do Brasil. O açúcar não teve, por certo, responsabilidade direta pela moleza dos homens, mas teve como causa direta: a exigência de um número maior de escravos; repelindo a policultura. Exigindo escravos para “mãos e pés do senhor de engenho”. Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Nos Estados Unidos, o uso da rede não chegou a dominar como aqui. As voluptuosidades e indolências só eram quebradas pelo espírito de devoção religiosa. Andava-se de rosário na mão, bentos, relicários, patuás, Santo Antônios pendurados ao pescoço; todo o material necessário às devoções e às rezas. Ao deitar-se, rezavam os brancos da casa-grande e, na senzala, os negros veteranos:

“Com Deus me deito,
com Deus me levanto,
Com graça de Deus e do Espírito Santo,
Se dormir muito, acordai-me,
Se eu morrer, alumiai-me
Com as tochas da vossa Trindade
Na mansão da Eternidade.”

Ao sentirem aproximar-se a morte, pensavam os senhores nos seus bens e escravos em relação com os filhos legítimos seus descendentes. Raro o senhor de engenho que morreu sem deixar alforriados, no testamento, negros e mulatas de sua fábrica. Por vezes o “alforriado” era um bastardo, fruto dos amores do senhor ou de uma pessoa da família com uma negra da casa.Os enterros faziam-se à noite, com grandes gastos de cera; com muita cantoria dos padres em latim; muito choro das senhoras e dos negros. Ao contrário do luxo utilizado nos enterros dos senhores e seus familiares, os negros, é claro, não se enterravam envolvidos em sedas e flores, nem dentro das igrejas.

Enrolavam-se seus cadáveres em esteiras; e perto da capela do engenho ficava o cemitério dos escravos, com cruzes de pau preto assinalando as sepulturas. Um traço importante de infiltração de cultura negra na economia e na vida doméstica do brasileiro resta-nos acentuar: a culinária. Várias comidas portuguesas ou indígenas foram, no Brasil, modificadas pela condimentação ou pela técnica culinária do negro.

Os negros dos serviços domésticos, todavia, gozavam de bom tratamento, existindo mesmo hierarquia e divisão de trabalho dentro das fazendas e engenhos. Como por exemplo: mucamas arrumadeiras, molequinhos para recados, copeiros. Na cozinha, cada mulher tinha a sua especialidade; a uma competia o preparo do peixe, a outra o da carne etc. Alguns engenhos tomaram nomes de origem africana – Zumbi, Cafundó, Cabida, Fubá.

No principalmente pela introdução do azeite-de-dendê e da pimenta-malagueta, tão comuns na cozinha baiana, o quiabo também é de origem negra. Várias comidas indígenas ou portuguesas foram modificadas pela técnica africana- a farofa e o vatapá por exemplo. Dos três centros de alimentação afro-brasileira – Bahia, Pernambuco, Maranhão-, o primeiro era o mais importante.
Vendiam-se nas ruas de Salvador – a mais afro-brasileira das cidades grandes-, caruru, mocotó, vatapá, pamonha, canjica, acaçá, abará, arroz-de-coco, angu, pão-de-ló-de-arroz e de milho, etc. As negras doceiras, de tabuleiro, ofereciam seus doces enfeitados em papel azul ou vermelho. E recortados em forma de corações, cavalinhos, pássaros, peixes. Os tabuleiros forrados de toalhas brancas, geralmente, repousavam em armações de pau, num pátio de igreja ou ao lado deum sobradão.

Viam-se, ainda, as negras de fogareiro, preparando o peixe frito, o regime alimentar brasileiro, a contribuiçãoafricana magunzá, o milho assado, a pipoca, o grude, o manuê. De noite, os tabuleiros eram iluminados com rolos de cera ou candeeiros flandres.Muitas das receitas africanas são muito bem descritas por Gilberto Freyre, ele as utiliza como documentos históricos.

(Integrantes do grupo: Aline Brito Miranda, Julianna Toniazzi Viana, Nathália Gris Seibt e Priscila Costa da Silva Aristimunha)